quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

A última dor de 2015 - feroz

Este foi um e-mail desesperado que escrevi aos meus dois médicos: 

Caríssima G. e caríssimo L. H.,

Preciso que vocês leiam esse depoimento. É muito importante.

Tentarei ser breve. Só peço desculpas porque mesmo sendo breve, casos psiquiátricos nunca são breves e superficiais. É tudo bem complicado e demorado.

Há mais de dois meses estou devendo esse e-mail à G.. Na última consulta que tive com ela, logo após meu retorno de São Paulo, em julho/2015, mês no qual tive meu primeiro contato com L. H., G. me pediu para entrar em contato contigo, L. H., solicitando seu contato, pois ela queria conversar sobre meu caso e tratamento. Entendi que, basicamente, a conversa giraria em torno de medicamentos e os problemas para dormir. Agora vocês têm os e-mails de ambos e se assim ainda o desejarem, podem se comunicar.

Quando procurei L.H., fui praticamente levada por uma amiga e colega da universidade, C., que viu que eu não estava nada bem nos idos de junho desse ano. C. faz tratamento com L. H. e, diante da rejeição do meu organismo aos medicamentos tentados pela G. (Duloxetina e Valdoxan), achou que eu deveria fazer o exame CYP-450, para entender o porquê, exame esse solicitado por L. H.  e feito em São Paulo.

Só que o problema estava muito mais complicado do que um simples pedido de exame.

Eu estou escrevendo esse e-mail a vocês para dizer, com pavor, que eu estava à beira da morte. Eu não aguentava mais viver. Acordar pela manhã estava sendo um suplício. Abria os olhos e começava o sofrimento, imediatamente: náusea (que muitas vezes tinha que controlar com Plasil para não vomitar), taquicardia, suores frios (invariavelmente suava muito durante a noite), um medo absurdo de encarar o dia e a vida, beirando o pânico (se é que não era), tristeza profunda, revolta com a vida pela situação que estou tendo que enfrentar, sozinha em (...), enfim, dá para esticar muito essa lista. Eu conseguia melhor um pouco somente depois de umas duas horas de pé, mas o maior problema era levantar. Como eu abria os olhos e me deparava com essa situação de horror, tentava desesperadamente dormir novamente para escapar daquilo tudo. Pela manhã eu conseguia, e esse tempo a mais de sono gerava pesadelos fortes e profundo mal-estar depois, porque levantava da cama entre 09:30 e 10:30 horas e o dia já tinha passado. Geralmente não dava tempo de fazer tudo o que tinha que fazer e ficava mais mal ainda, tornando, isso, um círculo vicioso e perigoso. A situação ficou tão ruim, mas tão ruim que decidi terminar com minha vida. Eu pedia a Deus para terminá-la, mas Ele não me ouvia e não ia me ouvir. Eu teria que terminar! Arquitetei um plano, que é muito difícil até de escrever: enforcamento, mas antes ia tomar uma caixa de stilnox para dormir em cima da corda (ou uma echarpe) e tentar dirimir o horror da cena. O lugar também já tinha sido estipulado: no registro de água do banheiro, porque me pareceu forte. Fiz o teste. Faltou nada para isso acontecer. Minha filha saiu de férias no dia 18 de junho e seu eu tivesse ficado em (...) mais uns dois dias, o plano teria sido executado. Eu repito: não dava mais para continuar. Eu já não tinha mais nem movimentos no corpo. Não mexia os braços, as mãos; meus olhos já não piscavam. Eu me olhava no espelho, com aqueles olhos de morta, e via que não tinha mais vida ali. Era só concretizar o que de fato acontecia.

O fato, caríssimos, é que conviver com a morte, lado a lado, como convivi durante esses dias, eu diria meses, antes do dia 18/06, me assustou demais. Eu percebi que tinha que fazer alguma coisa, mudar, sei lá, senão ia morrer. Eu só pensava na morte, dia e noite. Porém, antes desse período, eu também pensava, mas havia uma distância entre pensar e fazer e dessa vez a distância havia desaparecido por completo. A morte me fazia companhia dentro do meu quarto e do meu banheiro. Eu conseguia vê-la, sentia a respiração dela, a sua presença do meu lado.

Aí, as aulas da C. (filha) terminaram e a universidade estava em greve (aliás, essa greve ajudou demais, mas demais mesmo, no processo de melhora, depois). Viajo para minha cidade e decido não tomar mais nenhum remédio: nem Valdoxan, nem Stilnox, nem lamotrigina, nem plasil, nem nada mais, pois não estavam ajudando. E eu havia tentado com todas as minhas forças fazer com que desse certo. Minha cidade é uma paixão em minha vida, é onde gostaria de morar todos os dias, até o última dia de vida. Estar lá, mesmo à beira da morte, seria reconfortante, pensei, mas dessa vez não foi. Sem os remédios, ainda, não sei o que me tornei. Não havia vida. Me lembro de uma tarde gritar muito com Deus, na varanda dos fundos da casa. Eu vociferava como um cão raivoso, com os olhos fixos no céu, em meio a lágrimas que derramavam, que se era para viver assim, porque Ele havia me dado a vida? Eu não queria essa vida! E repetia, chorando muito, triste como nunca estive, profundamente magoada com Deus. Por que eu tinha que continuar acordando pela manhã? Por que? – eu perguntava, eu gritava, eu insultava, eu vociferava. Foi um momento muito difícil. Será que Deus ouviu? Que pena, não! Mas ele não se dirige a nós. Não tem como saber.

Em V. (minha cidade), tomei a iniciativa de procurar um grupo de apoio chamado N/A (Neuróticos Anônimos). Procurei esse grupo em C., mas, claro, aqui não tinha. Na (estado), somente em (...), (...) e (...) - três cidades. Mas em C. (ao lado de minha cidade) havia 04 grupos. Já havia decidido que quando estivesse em V., iria procurar o grupo. Escolhi o do bairro x, mais próximo da minha casa. No primeiro dia, J., o marido, foi comigo, pois eu havia perdido o tato em dirigir em C. e tinha que encontrar a igreja em que se reuniram (igreja ...). Quando a primeira pessoa começou a dar seu depoimento, eu comecei a chorar internamente (não queria exteriorizar, pelo marido, que é racional, matemático). A cada depoimento que eu ouvia, mais me comovia: eu havia encontrado pessoas iguais a mim, que sofrem dos mesmos males. Eu finalmente podia compartilhar as minhas dores porque meus interlocutores sabiam exatamente o que eu estava dizendo e sentindo. Isso ajudou muito. Eu voltei mais três vezes (reuniões todos os sábados), até a véspera do meu retorno. Dei muitos depoimentos, comprei toda a literatura deles e quis muito ter a capacidade de viver, nem que fosse por aquele grupo. Voltarei lá todos os sábados que estiver em V., daqui pra frente.

Graças às reuniões de N/A, tive um pouco de forças para ir à consulta com L. H. J. (marido)não ia poder me levar, era dia de rodízio. Também ele não faz questão nenhuma de levar alguém a essa especialidade. Não entende e nunca entenderá. Peguei um ônibus até a rodoviária do Tietê (1 hora e meia de viagem) e do Tietê metrô até chegar à estação Vera Cruz e depois a pé até o consultório, tentando encontrar o lugar. Uma maratona! Movo mundos em busca de uma cura para isso. Leio, pesquiso, vou atrás. A conversa foi muito boa. Sei que passei até do horário, mas o caso estava muito mais complicado do que você poderia imaginar, L.H.. Não daria para você saber, em apenas uma consulta. Como eu estava sem crença na vida, resolvi experimentar seu novo olhar medicamentoso: escitalopram e 1/3 de donarem, caso tenha insônia. Comecei com uma gota por dia e fui aumentando até 12, segundo prescrição. Era para eu ter entrado em contato, para subirmos, mas senti que estabilizei com 12 gotas e não senti vontade de aumentar. Continuo com elas. Fui melhorando aos poucos. O medicamento não causou efeito colateral nenhum, apenas melhorias.

Só que meu contexto do momento do início do novo remédio ajudou muito no processo. A universidade fez uma greve de 03 meses e esse tempo foi fundamental para mim. O trabalho é o principal vilão da minha vida. Ele me adoece. E houve outro pulo do gato: A ONG PESAMENTOS FILMADOS, dirigida por Ana Maria Saad. Em conjunto com o medicamento (que foi certeiro), aos cuidados de G. e E. (minha psicóloga), ao pouco tempo de convívio com N/A, posso dizer com toda certeza que Ana Maria Saad e seu trabalho salvaram a minha vida. Eu quero acreditar que Deus está por trás disso, que foi Ele que enviou essas tábuas para eu me agarrar. Talvez um dia Ele diga isso para mim. Ana buscou a cura na medicina integrativa e depois de 10 anos tendo acesso aos melhores profissionais, como Ângela Colameo, Milena Dias (com a ioga), psiquiatras como Edmond Saad e vários outros profissionais incríveis, conseguiu sair do “cantinho da bosta”, como ela intitula. Ela resolveu compartilhar tudo o que aprendeu ao longo de 10 anos e criou a Ong para tratamento dela e ajudar outras pessoas. Está evitando um monte de suicídios e tem ajudado a evitar o meu também. Ana promove congressos on line com esses profissionais e criou um grupo fechado de discussão no facebook, chamado “Clube da Cachola”, para quem participa do programa. Sobre esse trabalho eu conto mais, pessoalmente. O fato é que se vocês ainda não conhecem esse trabalho da Ana, precisam conhecer. Aí vai o link do site dela: http://www.anamariasaad.com.br/

Enfim, eu fui melhorando aos poucos, com a medicação, muitas leituras, N/A, o congresso, palestras e vídeos da Ong Pensamentos Filmados e a paciência da minha terapeuta, E., com quem converso todas as sextas-feiras.

Estou curada como a Ana? Longe disso. Me livrei da morte? Ainda não. Afastei-a um pouco, por enquanto em uma distância segura, mas morro de medo de ela voltar a me assombrar. Se ela voltar de novo a ficar comigo cara a cara em meu banheiro, eu sei que não saio viva, por isso estou entrando em contato com vocês. Por favor, é sério, muito sério.

Peço muitas desculpas pela demora em entrar em contato. À G. por não ter contactado L. H. e ter feito o que pediu, naquele momento; ao L. H. por não ter entrado em contato para dar o resultado dos exames que pediu e saber se tinha que elevar as 12 gotas de Lexapro e se já podia tirar a lamotrigina. A minha justificativa é a seguinte: todo esse processo me trouxe muita indisciplina. Eu acredito que o medicamento não é uma pílula milagrosa que vai resolver todos os problemas. Eu preciso fazer a minha parte e isso envolve muitos fatores que a Ong e o Clube da Cachola estão me ajudando a fazer. Disciplina é muito importante nesse processo. Não ia adiantar nada entrar em contato com vocês se eu não tinha minha vida em um caminho um pouco digno de recuperação. É isso que estou tentando fazer nesses últimos dois meses. O trabalho na universidade me sufoca e se não dou conta dele me deprimo mais ainda. Tenho tentado dar conta dele, mas ele me consome muito tempo. Acho que estou em um caminho. Faz 07 semanas que não entro no Clube da Cachola para participar, pois precisei fazer uma viagem para o exterior (congresso) que envolveu 03 semanas da minha vida, além do trabalhão para organizar tudo. Mesmo assim, sinto um caminho. Sobre isso, converso mais pessoalmente. Hoje retomo ao Clube da Cachola e à minha estrada de cura.

Segue, em anexo, o resultado dos meus exames e o primeiro exercício de um plano de cura de 12 semanas que o Clube da Cachola nos passou. Infelizmente parei nesse primeiro, mas agora estou retomando. Eles já estão no 8º. Não fiz o exame CYP-450, que só é feito em São Paulo. Não era urgente, acho até que dei uma forçada para fazer. Em janeiro estarei em férias em V. e faço. Quero esse resultado, de qualquer forma.

Obrigada pela paciência.


p.s.: G., meu sono está uma bagunça. Precisamos conversar. Porém, sem disciplina e sem aplicação dos métodos que você me passou, não atingirei os objetivos. Esse é meu ponto. Estou tentando organizar a vida. Não consegui ir à ultima consulta, pois viajei nesse dia. Tampouco consegui avisar. 

domingo, 9 de agosto de 2015

Deus, me ajude a ajudar

Acabo de ver três fotos do meu irmão caçula com sua única filha, que foram enviadas pela minha cunhada, via whatsapp. Hoje é dia dos pais. O cenário da foto é a casa dela, na qual meu irmão não pode morar, porque ela tem apenas dois cômodos: uma cozinha e um quarto, em que dormem dois adultos e três crianças: ela, a filha com duas crianças e a filha do casal. No meio dos dois quartos um banheiro, que, pelo que me lembro, não tem sequer porta; uma cortina de plástico faz a vez da porta. 

Deus, me ajude a ajudar. Faça de mim alguém forte, cure a minha doença. Acho que é por cenas assim que ainda não morri. 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Carta a J.

Oi, J., 

A última semana não foi muito boa, me desculpe. A vida não tem sido fácil pra mim desde que eu me entendo por gente. Então, comecei a lutar bravamente, na esperança de quando chegasse a essa altura dela, e já estivesse equilibrada e estabilizada, mas não foi isso que aconteceu. Regressamos ao Brasil e enfrentamos uma boa barra, reformando a casa, vivendo 06 meses no apartamento apertado, reafirmando a vida aqui com todos os detalhes que essa tarefa requer, cuidando da readaptação da C. no novo colégio, enfim, não foi fácil. Mas era uma alegria ver  C. naquele colégio espetacular, mesmo naquele custo. Então os móveis chegaram, mas ainda tivemos meses pela frente para terminar tudo, pintando a casa e enfrentando obras e mais obras. Mesmo assim, ainda não havia ficado pronto, tinha a parte externa a ser feita, principalmente a área da lavanderia. Ou seja, mais trabalho. 

Mas foi aí que  a vida me pregou a pior peça de todas. Eu não sei se a pior, mas a mais difícil, com certeza. Depois de tudo pronto, estabilizado, vem o concurso num lugar longínquo e tomo consciência de que aquela vida era linda, mas tinha alguma coisa errada com ela. De alguma forma, ela não podia acontecer e se manter. 

Eu encontrei na vida algo muito difícil de se encontrar: um lugar para morar que amo com todas as minha forças, um lugar que me faz tão bem que um dia me peguei chorando de alegria por estar ali, o lugar no qual gostaria de viver para sempre, até o último dia da minha vida. E, quando esse dia chegasse, que eu fosse enterrada ali, para me misturar àquela terra que é a mesma coisa que eu. Eu amo V.! Se me oferecessem entre morar em Paris e morar em V., eu escolheria V.. Eu escolhi V., mas não posso usufruir dela. Viver longe da minha fonte de energia é a coisa mais triste que tenho que fazer na vida. Ter que passar 10 anos fora, no mínimo, para poder pagar por V., para poder ter o direito de morar nela, um dia, é arrasador. Eu não se foi a vida que fez isso comigo, não sei se foi eu mesma que fiz, não sei se foi nós que fizemos isso conosco. Não tenho essa resposta. Às vezes acho que foi a primeira possibilidade, às vezes a segunda, às vezes a terceira. O fato é que não  consigo chegar a uma conclusão que represente a verdade dos fatos.  

Não gosto de VC, não sinto prazer nenhum em estar aqui. Não sinto amor pela casa que foi erguida. Eu tenho apenas uma casa. Aqui é trabalho. A cidade é triste e pessoas tristes como eu precisam do mundo para poder reverter seu quadro interior; precisamos de vida e aqui não tem vida, não tem mundo ao redor, não tem nada. Não tem nós dois, não tem você chegando em casa depois de um dia na P. (mesmo tarde, eu não me importava, pois eu tinha V.), não tem poesia. Então só resta o trabalho: a verdadeira realidade. É preciso pagar pela poesia, não é mesmo? Poucos têm direito a ela. 

Já percorri (e não vivi) 3 anos e meio dessa jornada e igual a um presidiário que faz a contagem regressiva para sair da cadeia assim faço eu: lá se foi mais um dia, lá se foi mais um mês. Ano? Uma eternidade. 

Eu tento desesperadamente encontrar mecanismos para percorrer essa estrada, mas não é fácil, nem sempre consigo e acabo mergulhando numa tristeza sem fim, porque a dor é insuportável. 

Nem você e nem ninguém conseguem mensurar o quanto sinto por ter que ser assim. Que pena! É o que tenho a dizer: que pena! 

Mesmo sabendo que sua verdade é outra e seu olhar também, mesmo sabendo que é difícil para você compreender toda essa conjuntura, eu precisava me colocar para você. 

domingo, 31 de maio de 2015

dia 20 de dezembro de 2021: a data da minha carta de alforria

No dia 20 de dezembro de 2021, uma segunda-feira, eu consigo minha carta de alforria. Completo 10 anos de serviço público e posso pedir minha aposentadoria. Terei ultrapassado os 30 anos de trabalho e muito, pois comecei aos 14 anos, com registro em carteira. Nessa data já terei quase 40 anos de trabalho, mas neste país de merda é assim mesmo: ganha quem começa a trabalhar aos 30 anos e não tem que lutar na vida, antes disso. O fator previdenciário acabou com os pobres que tiveram que começar a trabalhar aos 14 anos, acabou com a minha geração. Naquela época podia. 

Essa é a data:

Dezembro de 2021

Dom    Seg      Ter      Qua     Qui      Sex      Sáb
                                       1          2          3          4
5             6          7          8          9         10        11
12          13        14        15        16        17        18
19          20        21        22        23        24        25
26          27        28        29        30        31    

Só me resta esperar e trabalhar muito até lá. Não que eu não queira fazer mais nada. Realmente não é isso, mas fazer alguma coisa que me dê apenas prazer. Será que existe? Eu hei de encontrar! Não desisto de nada - eu sempre dizia. Agora penso em desistir a todo instante. Que sofrimento! Que dureza ficar longe do meu pequeno paraíso! E ainda por mais 6 anos e meio! Seis longos anos e meio. 

Aurora 

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Crise de pânico

Ando tendo crises terríveis de pânico, sempre ao acordar. Desde 2014 que elas começaram. Houve momentos de maior intensidade em que elas me impossibilitavam de sair da cama. Eu abria os olhos e já começava a tremer, a  suar frio, a  ter taquicardia, o coração disparava e uma dor imensa invadia todo o meu ser. Eu olhava para o dia que parecia um bicho peçonhento e ficava ali como um cão abandonado sem conseguir me mexer, suando cada vez mais, desesperada, sozinha, sem ninguém por perto, sem ninguém para me estender a mão, sem ninguém saber o que estava acontecendo. E eu suava cada vez mais e cobria o rosto com o cobertor, tentando desesperadamente dormir novamente, apagar, para não ter que presenciar aquilo, para não ter que viver tanta miséria da alma, tanta dor. Depois de mais de uma hora nessa situação, às vezes quase duas, eu levantava, com o pijama todo ensopado, com o dia perdido, praticamente, porque já era muito tarde e tinha que encarar o bicho do dia, com minhas mãos frágeis. Então eu queria morrer e só pensava na morte. Nesses momentos, ficava imaginando as formas de morrer. Se não fosse tão difícil... Eu queria um método que fosse infalível. Pensava em enforcamento, em tomar um caminhão de remédio, em tanta coisa. E havia minha filha dentro desse dia, por isso acho que levantava; e havia meu filho fora do país, que tem uma imagem minha de alguém que lutou e conseguiu reverter a vida dele, por isso levantava; não por mim, nunca, pois se pudesse desligava o botão da minha vida - eu já disse isso várias vezes aqui. Mas eu vou continuando, não sei como. 

Há duas semanas e meia que tenho vivido tal síndrome do pânico novamente. Tenho levantado da cama às 09:00/09:15. Já é uma vitória, porque andava saindo às 10:30/11:00, em 2014. Os mesmos sintomas: muito medo, dor horrível no peito, suor exacerbado, querendo dormir novamente, cobrindo a cabeça com o cobertor e suando cada vez mais; taquicardia; por volta de uma hora na cama sem conseguir levantar, nesse desespero; sozinha, sem ninguém para ajudar; marido fora do estado, impassível diante da situação. Ele não quer saber se sofro ou não, importa é o meu salário bom e minha estabilidade. É isso que valho. Sem dinheiro, não valho nada pra ele. Se virar dona de casa, serei menosprezada e judiada emocionalmente. Não tenho pra onde correr. 

A universidade está em greve e estou aproveitando esse momento para colocar o trabalho em ordem. É uma luta, dia após dia. É como disse Kassia Kiss em uma entrevista: a cada passo, retirar uma pedra do caminho, desde a hora que levantamos até a hora de dormir. Mas a hora de levantar é cruel. 

Eu estou muito triste. Eu tenho que enfrentar o dia sozinha, acho que por isso o pânico. Acho que somos sozinhos na vida. Eu queria que alguém me pegasse, um anjo, por exemplo, e me levasse para a casa dele e me tirasse desse mundo e cuidasse da minha alma. Eu sou muito esforçada e ele poderia ter dó de mim. Mas não tem jeito, isso nunca vai acontecer. O Céu não socorre a Terra. Eles são muito cruéis. Deus é muito cruel. Muito cruel. 

Tenho que trabalhar agora. O dever me chama. É sempre assim. 

domingo, 17 de maio de 2015

Um dia isso tem que acaber

Acabo de chegar da casa de um casal de mineiros muito amigos. Ela é enfermeira; ele, delegado. Gosto muito da maneira mais despreocupada com que eles levam a vida, pelo menos em aparência. Entro no meu e-mail, à meia-noite - neurose da vida acadêmica, e havia um enviado por uma editora de uma revista científica, as tais que me matam. Escrevi um artigo e o havia enviado para publicação. Os três pareceres foram favoráveis, mas pedem uma série de mudanças. Claro, ficarei horas, dias, em cima desse artigo para atender às mudanças solicitadas. Fora o estresse que é abrir um e-mail desses, pois você nunca sabe se seu artigo vai ser aprovado ou não. Eu começo até a tremer um pouco, a suar. Acho que tenho pânico desse negócio. Acho, não, tenho certeza. 

Um dia vou apenas viver, sem esses horrores, sem ter que me deparar com e-mails assim. Um dia vou chegar da casa de amigos, como ocorreu hoje, e ficar tranquila porque saberei que no dia seguinte terei que apenas viver a vida. E nessa vida não tem espaço nenhum para a Capes, apenas para os amigos, o pilates, a participação em ongs, fazer bem aos outros..., ou seja, a VIVER. 

O governo vai mudar o fator previdenciário. Não sei como a nova mudança afetará os funcionários públicos, que já possuem o modelo 85/95, mas essa possibilidade já é uma mudança. 

Um dia vou acordar e ter que apenas viver. Tomara, meu Deus! Me conceda essa graça!. 

domingo, 19 de abril de 2015

Ver a vida como ela pode ser

Eu não quero me esquecer dessa frase, dita no filme Cinderela, porque eu também vejo a vida como ela pode ser. O que pode ser, para mim: sair do cinema, na metrópole ao lado da minha amada cidade, cinema este dentro de shoppings que exalam perfumes bons, que impregnam a alma da gente de sensações delicadas, pegar o carro no estacionamento e dirigir por aquelas estradas maravilhosas, com belas vegetações ao redor, e chegar até a cidade da minha vida. Chegando nela, o carro vai se dirigir para o meu condomínio e fazer a curva para a minha casa. Eu o vejo chegar na minha garagem, agora, e parar. Então, eu pego a chave da minha casa, abro a porta e chego na minha sala. Olho pela bay window, cujo vidro transparente deixa entrever o meu pé de acerola, bem em frente a casa, enfeitando o jardim. Assim eu vou de encontro ao meu pé de acerola. Ele está perto de mim, ele me pertence, nesse momento. Meu marido está comigo e também participa da cena. A vida é muito boa, nesse instante. Nós vamos dormir, provavelmente transar, e no dia seguinte experimento o bem-estar de dar de encontro novamente com a bay window e o pé de acerola, completamente translúcido através do vidro transparente. Esta é a vida como pode ser: simples, muito simples, e perfeita. A perfeição é simples; ela está apenas em um pé de acerola, o meu pé de acerola. Eu não queria mais nada, apenas nunca mais me separar do meu pé de acerola e ter condições de mantê-lo na minha doce cidade. 

Meu marido tem condições de pagar por essa vida, mas não o faz. Seu coração é de pedra e não quer ver a minha dor ao sair de um cinema, na cidade do trabalho, que está a 1.600 km do meu pé de acerola. Ele prefere se desviar do meu olhar triste e dos meus olhos marejados. Ele prefere o meu salário. Eu nunca vou perdoá-lo por isso. Nunca! Nunca! Nunca! Eu só estou pedindo um pé de acerola. 

Deus, você pode me ajudar? Pai, você pode me dar o meu pé de acerola de volta? Pai, você está aí? Você pode me ouvir? Eu só queria o meu pé de acerola e a paz. Eu vou mesmo ter que esperar 08 anos por ele? Pai? Você pode me ouvir? Fala comigo, por favor! Por favor!